segunda-feira, 14 de setembro de 2009

--> Espiritualidade do Seguimento


Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus.

No princípio, era o seguidor! Jesus irrompia inesperadamente e dizia: “Segue-me, venha após a mim”. A resposta positiva exigia uma ruptura com a maneira de viver até aquele momento do que aceitava o convite. A vida deveria ser reorganizada. O centro era o mestre e o caminho apontado por ele. Quem aceitava tal convite nos seus termos tornava-se um discípulo. Também, no princípio, existia o simpatizante: aquele que se emocionava com as palavras do Cristo, achava fantásticos os seus milagres, impressionava-se com a originalidade de suas atitudes, nutria enorme curiosidade por encontrá-lo – mas não colocava o pé no caminho. Simpatizava até o ponto de não precisar mudar seu estilo de vida. Tinha admiração, mas não estava interessado na transformação resultante da formação espiritual à qual todos os discípulos viveriam quando resolvessem caminhar o caminho proposto pelo Filho de Deus.

Ainda no princípio, havia o consumidor. Este sequer tinha tempo de ouvir o Senhor; desejava, isso sim, comer o pão e o peixe multiplicados, ansiava pela cura da perna atrofiada, somente tinha interesse em ser restaurado da lepra... Uma vez alcançada a graça, nem sequer lembrava de retornar para agradecer. O discípulo seguia Jesus porque o admirava; o simpatizante admirava sem o seguir, e o consumidor nem seguia e nem admirava, posto que Jesus era apenas um provedor de suas necessidades, e não alguém a apontar-lhe um caminho transformador.

Jesus conviveu indistinta e graciosamente com estes três grupos dentro da multidão que gravitava ao seu redor. Nunca se negou a oferecer caminho aos seguidores, admiração aos simpatizantes e provisão aos consumidores. Todavia, o rabi sabia que os discípulos eram os protagonistas para cumprir sua missão no mundo. Certamente, ele não contava com simpatizantes e consumidores para o estabelecimento do Reino de Deus. Estava certo, como sempre! Nos duzentos anos que se seguiram à sua morte, o pequeno e frágil grupo inicial de discípulos, apaixonado por sua missão, se espalhou por todo Império Romano. Eles haviam sido convocados pessoalmente para seguir um caminho; colocaram o pé na estrada e saíram pelas vilas e cidades com a mesma convocação com que foram convocados: sigamos o seu caminho. Quanto aos simpatizantes e consumidores, não se sabe o que aconteceu com eles. Afinal, quem fez a história foram os discípulos.

Não resta dúvida: o cerne da espiritualidade cristã está em seguir a Jesus. Quando decidimos conscientemente seguir o seu caminho, então a espiritualidade cristã começa a fluir em nós. O Pai, pelo seu Espírito, vai nos transformando na imagem de seu Filho à medida que damos os passos no caminho. Fora do seguimento, não há espiritualidade. Todos nós estamos necessitados de retornar à experiência original dos primeiros discípulos. Sim, nossa carência essencial está em “ver” Jesus de novo surgir em meio à nossa complexa e agitada vida, cheia de cansaço e dores, e sussurrar com ternura e vigor ao nosso coração: “Vem e segue-me!” Quando ele irromper no nosso cotidiano, como aconteceu com os pescadores da Galiléia ou com o coletor de impostos da Judéia, com aquele sedutor olhar a nos convidar a seguir o seu caminho, e largarmos as redes ou a segurança da coletoria, aceitando seu convite, então, experimentaremos real comunhão com o Deus trinitário. Longe do caminho do Filho, não seremos capazes de enxergar a face do Pai e tampouco vivenciar a presença do Espírito. De fato, no cristianismo bíblico, espiritualidade é um mero sinônimo de seguimento.

Se as nossas orações, liturgias, louvores, corais, células, congressos e mensagens não apontam o caminho do Senhor e não convocam o mundo para segui-lo, então, tudo isso pode até ser espiritualidade, mas não é cristã. Se nossas igrejas se tornam fontes de atração para consumidores e admiradores, ao invés de espaços comunitários formadores de discípulos, tenhamos consciência: todos devem ser tratados com graça e amor, como Jesus fez, mas só cumpriremos sua missão no mundo sendo e formando seguidores. Não deveríamos, mas, infelizmente, estamos hoje diante de uma encruzilhada, que por natureza é o entroncamento de dois caminhos. Entrar por um é necessariamente excluir o outro. Ou escolhemos a espiritualidade do entretenimento, que produz simpatizantes e consumidores, ou optamos pela espiritualidade do seguimento, a que gera discípulos. Tenhamos, contudo, uma certeza – desde sempre, Jesus já fez a sua escolha. Basta, apenas, que o imitemos nela.

Eduardo Rosa Pedreira é pastor da Comunidade Presbiteriana da Barra da Tijuca, doutor em teologia com ênfase em espiritualidade pela PUC-RJ.

domingo, 6 de setembro de 2009

--> TEOLOGIA LATA DE NESCAU

Um dia eu tive um estalo a partir da brincadeira de minhas filhas pequenas.

Crianças (e alguns adultos) gostam muito de fazer barulho. A coisa que elas mais apreciam é fazer uma “batucadinha”. Minhas meninas gostam de pegar latas vazias de alumínio, dessas de Nescau, e fazer uma bateria improvisada. Vendo aquela lata agredindo meus ouvidos, comecei a formular a teologia da lata de Nescau.

Todos sabem como é a lata de Nescau. O alumínio faz um barulho intenso se batermos nele. Porém, a lata só faz barulho se estiver vazia. Experimente fazer batucada em uma lata cheia, de preferência lacrada, que você acabou de comprar no supermercado. O som que sairá é mínimo se comparado ao de uma lata vazia.

Na minha caminhada com Jesus tenho visto muita “lata de Nescau vazia” nos templos. Pessoas ocas de vida, sem conteúdo, sem relacionamento sadio e santo com Deus, mas, que fazem muito barulho. Porém, o barulho que fazem, na verdade, não é para atrair a atenção para o Senhor, mas sim para si mesmas. Quanto mais vazias, mais barulhentas.

Felizmente há também muita “lata de Nescau cheia”. Gente que não atrai a atenção para si, e sim para o seu conteúdo — a presença de Deus neles. Gente que não se importa com holofotes, gente com um relacionamento com Deus baseado na graça. O conteúdo de suas vidas ocupa todo o espaço. Naturalmente essas pessoas exalam aquilo que Paulo classificou de bom perfume de Cristo (2Co 2.15).

Quando vamos a um supermercado, não nos interessamos pela embalagem. Queremos saber se o conteúdo do produto é bom, se satisfaz as nossas necessidades. Tanto é que, quando o produto acaba, jogamos a embalagem fora. Uma lata de Nescau vazia só terá utilidade se for reutilizada para outros fins (guardar quinquilharias como pregos enferrujados, por exemplo). Caso contrário, o seu destino é a lata de lixo. O que queremos, portanto, é o conteúdo, e não o invólucro.

Não é à toa que a Bíblia nos exorta tanto a estarmos cheios do Espírito (Ef 5.18), tendo em nossas mentes somente aquilo que presta (Fp 4.8). Na medida em que nosso conteúdo for o de Deus, despertaremos a atenção para Deus, e poderemos realizar o nosso papel de sal da terra e luz do mundo. Contudo, se estivermos vazios, seremos como o sal insípido, que só serve para calçamento (Mt 5.13), ou seja, ser pisado (outro termo poderia ser “humilhado”) pelos homens, e, no final, ser jogado no lixo da história.

Fica então a admoestação de Deus: viva cheio de Deus. Busque-o sempre (Is 55.6). Molde seus padrões em conformidade aos dele, e não tente fazer o contrário (Rm 12.1-2). Enfim, seja uma lata de Nescau cheia, plena, e não uma lata vazia, barulhenta e sem significado.

*Rodrigo de Lima Ferreira
Pastor presbiteriano

sábado, 5 de setembro de 2009

--> A IGREJA QUE NÃO EXISTE MAIS

“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” At 2:43-47

Na época do surgimento da Igreja do Novo Testamento, a palavra igreja significava, apenas, uma reunião qualquer de um grupo organizado ou não. Assim, o texto nos revela que havia um grupo organizado em torno de sua fé (Todos os que criam estavam unidos) – todos acreditavam em Cristo.

Segundo o texto, os participantes do grupo do Cristo não tinham propriedade pessoal, tudo era de todos (tinham tudo em comum) – os membros desse grupo vendiam suas propriedades e bens e repartiam por todos – e isso era administrado a partir da necessidade de cada um; e se reuniam todos os dias no templo; e pensavam todos do mesmo jeito, primando pelo mesmo padrão de vida (unânimes); e comiam juntos todos os dias, repartidos em casas, que, agora, eram de todos, uma vez que não havia mais propriedade particular; e eram alegres e de coração simples; e viviam a louvar a Deus; e todo o povo gostava deles, e o grupo crescia diariamente. Diariamente, portanto, havia gente acreditando em Cristo, se unindo ao grupo, abrindo mão de suas propriedades e bens e colocando tudo à disposição de todos.

Essa Igreja era a Comunhão dos santos – chamados e trazidos para fora do império das trevas, para servirem ao Criador, no Reino da Luz.

Essa Igreja não precisava orar por necessidades materiais e sociais, bastava contar para os irmãos, que a comunidade resolvia a necessidade deles.

Deus havia respondido, a priori, todas as orações por necessidades materiais e sociais, fazendo surgir uma comunidade solidária.

O pedido: “O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje." (Mt 6.9) estava respondido, e diariamente.

Então, para haver o “pão nosso” não pode haver o pão, o bem ou a propriedade minha, todos os bens e propriedades têm de ser de todos.

Mais tarde, eles elegeram um grupo de pessoas, chamadas de diáconos – garçons, para cuidar disso (At 6.3). Então, diante de qualquer necessidade, bastava procurar os garçons, que a comunidade cuidava de tudo. Era o princípio do direito: se alguém tinha uma necessidade, a comunidade tinha um dever.

Essa Igreja não existe mais!

Pr. Ariovaldo Ramos

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

--> “Em nome de Jesus, vai embora, Zé Maria!"


Aconteceu há alguns anos, mas não posso deixar
de escrever este relato que me fora feito de
um acontecimento que me estarreceu.
Talvez ainda se possa colher
lições do ocorrido.

O espancamento do guardador.

Zé Maria*, o guardador de carros estacionados nas cercanias de uma igreja protestante, já há anos prestava este serviço e ganhava uns trocados. Num dado domingo, justamente entre a Escola Dominical e o culto da manhã, Zé Maria foi abordado por três rapazes muito violentos.

Intencionando tirá-lo da área para assumirem o "pedaço", eles o espancaram ao ponto de haver sangramento na face, na cabeça e em outras partes do corpo. Enquanto isso, o povo da igreja assistia, a certa distância, ao quadro de violência.

O pedido de socorro.

Com a pouca lucidez que lhe restava, sabendo estar correndo risco de morte, Zé Maria correu em direção aos portões da igreja que, à esta altura, estavam fechados para a “segurança” dos crentes.

Zé Maria implorou para que o deixassem entrar, e, depois de desesperada insistência, algumas pessoas o puseram para o lado de dentro do portão. Ficou alí à salvo e aliviado por longos minutos, enquanto os que o espancaram ainda estavam do lado de fora do portão ameaçando matá-lo.

Pra quê se envolver?

Entretanto, uma senhora, membro da igreja, que estava juntamente com os demais observadores no lado de dentro do portão, incomodada com a situação e o envolvimento da igreja no caso, começou a ordenar-lhe que saísse do pátio do templo.

Afinal, ora vejam!, onde já se viu a igreja ter que se envolver com o sofrimento de "gente vagabunda", lidar com a violência urbana, ou mesmo preocupar-se com o direito à vida, a dignidade e a integridade humana?!

Em nome de Jesus?

“Vai embora, em nome de Jesus!”, repetia ela com intrigante empáfia, como quem vestida por mística de autoridade espiritual supostamente contida no jargão da expressão usada -- “Sai, em nome de Jesus!” --, enquanto o moço, todo ensangüentado, implorava pra que não o tirassem dali.

“Se eu sair, eles vão me matar, dona!”, dizia Zé Maria com voz de pavor a todos os participantes da igreja que estavam presenciando a cena naquele momento. Estes, contudo, se viram divididos entre a "autoridade espiritual" e a desesperada necessidade do moço.

Lançado aos lobos pelas ovelhas alegres.

Não tardou muito e, depois do mórbido silêncio que tomou conta de todos frente ao comando daquela senhora que insistia em pedir que ele saísse “em nome de Jesus”, o rapaz, com o olhar distante, confuso e perdido, saiu às pressas e desapareceu do lugar.

"Sem lenço e sem documento", Zé Maria pirulitou dali sem deixar rastros. Os igrejados, contudo, continuaram a desfrutar dos três abençoados cultos daquele domingo - dia do Senhor! - cheio de cânticos de alegria e louvor marcados por característica coreografia evangélica.

Falou-se sobre o amor de Deus "por todos nós", pediu-se pela generosidade de Deus na vida de cada um dos presentes ao culto, e, depois e acima de tudo, impetrou-se a bênção apóstólica: "Que a graça do Senhor Jesus, o amor de Deus o Pai e a consolação do Espírito Santo esteja com todos e cada um dos que amam sinceramente ao Senhor". "Amém", disseram todos.

A notícia devastadora.

Dois dias depois, o jornal da cidade informa que um guardador de carros que trabalhava no centro havia sido morto a pauladas assim que chegou em casa na segunda-feira.

Para o desespero de poucos e a indiferença de muitos, imaginou-se que se tratava do mesmo guardador de carros que havia pedido refúgio para a igreja que o colocou para dentro do portão e depois o expulsou “em nome de Jesus”.

Sobrevivência e exclusão.

Zé Maria, contudo, reapareceu dois meses depois nas redondezas da igreja. Ele havia sido confundido com a morte de outro guardador de carros. Entretanto, continua fora daqueles santos e impenetráveis portões que não se abrem para os que experimentam violência e correm para a vida na hora que mais precisam.

Que razões teria ele para entrar numa igreja que o expulsou "em nome de Jesus", quando a igreja não pediu desculpas pelo que fez? Como pode este rapaz enxergar a Graça salvadora pelo prisma de um "evangelho" que se preocupa com a salvação da alma, que se gasta no consumo da fé, que se retira da realidade e que promove uma fé sem compromisso social?

De forma mais ampla, como podem os Josés e as Marias encontrarem na igreja a "cidade de refúgio" de que precisam no momento em que estão fitando a violência e a morte? Como podem correr pela vida em direção a uma igreja cuja receptividade, naquele momento, inspirou estar na contra-mão do Reino?

"Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes; estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me. Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te? E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes. Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes. Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.” (Mateus 25:31-45)

*Zé Maria aqui é usado como nome fictício.

Fonte: Blog do Luís Wesley


http://luiswesley.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de julho de 2009

--> A IGREJA E O SINCRETISMO RELIGIOSO



O Sincretismo religioso é um fenômeno existente no contexto social pós-moderniade, onde o relativismo e o individualismo induzem às mudanças rápidas dos valores tradicionais e absolutos baseados na Palavra de Deus e na ética cristã, por uma nova ordem de valores sincretizados e secularizados. Vejamos alguns pontos importantes sobre o sincretismo religioso que atingem às igrejas neste contexto, a saber:

a) Definição do Sincretismo

Segundo o dicionário de Aurélio, a palavra sincretismo vem do gr. synkretismós que significa: "1. tendência à unificação de idéias ou de doutrinas diversificadas e, por vezes, até mesmo inconciliáveis; 2. Amálgama de doutrinas ou concepções heterogêneas; 3. Ou, também, a fusão de elementos culturais diferentes, ou até atagônicos, em um só conjunto, continuando perceptíveis de alguns sinais originários".

b) A apostasia das igrejas sincretizadas.

Na pluralidade do sincretismo religioso, as igrejas sincretizadas passam a ser um “supermercado” de opções e satisfações do religioso mais exigente, individualista, indiferente e descompromissado com a igreja de sua origem geradora de sua fé. Tais igrejas passam a ser inchadas em quantidade pelo fermento velho da malícia e da hipocrisia, sem qualidadade e sem compromisso com a Verdade Bíblica. Vejam o cuidado do apóstolo Paulo neste sentido, repreendendo e exortando a igreja em Corinto contra a impureza, a fim de que os valores éticos cristãos não se corrompessem: "1Geralmente, se ouve que há entre vós fornicação e fornicação tal, qual nem ainda entre os gentios, como é haver quem abuse da mulher de seu pai. 2Estais inchados e nem ao menos vos entristecestes, por não ter sido dentre vós tirado quem cometeu tal ação. 3Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou, 4em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, juntos vós e o meu espírito, pelo poder de nosso Senhor Jesus Cristo, 5seja entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus. 6Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento faz levedar toda a massa? 7Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós. 8Pelo que façamos festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade. Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem. (..) Mas Deus julga os que estão de fora. Tirai, pois, dentro de vós a esse iníquo. (1ª Cor 5.1-9, 13). Portanto, é o "fermento velho da malícia e da hipocrisia" que corrompe toda massa religiosa das igrejas, o qual deve ser expurgado.

c) O crente passa a ser um nômade religioso.

O crente religioso passa a ser um nômade, de igreja em igreja, de festividade religiosa em festividade religiosa, de show evangélico em show evangélico. Passa ser um religioso da festiva adaptando-se cada vez mais ao mundo das opções religiosas, que sufoca as convicções doutrinárias da sua fé, em substituição cínica de novos padrões, valores flexíveis, sem ética, moral, espiritualidade e tradição. Torna-se maleável, volúvel, eclético, circunstancial, sem fé na verdade, sem convicção e firmeza. Esquecendo-se que a Palavra de Deus é imutável, insubistituível, absloluta e não relativa sujeita às mudanças como se fosse oriunda do pensamento humano. Ela é, absolutamente, imutável, como disse Jesus: "o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar". (Mt 24.35).

d) O crente passa ser um consumidor religioso, egoista.

As satisfações destes tais são mais sociais e materiais. Procuram as Igrejas para resolver egoisticamente, hedonisticamente, convenientemente, os seus problemas materiais, sociais, econômicos e até políticos. É como Jesus disse: "(...) Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes. Trablhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará (...). (Jo 6.26-27). Assim caminhando na base desses interesses secularizados, sufocam, pisam, desprezam os valores eternos, espirituais e morais exarados na Palavra de Deus. Leiam: Mt.13:20-22. Então, enveredam no caminho fácil do sincretismo religioso, perdendo a convicção da sua fé e da sã doutrina, que passa ser coisa superada do passado e já não serve mais para a era moderna do presente.

e) A vida cristã passa ser eclética e secularizada.

A vida cristã desses tais passa ser sintonizada mais com o mundo (kosmos) secularizado do que com a Igreja de Cristo Jesus. Deste modo acontece um antagonismo pernicioso entre a igreja e, o reino de Deus, que “...Não é comida nem bebida, mas, justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm.14:17). Como sabemos a palavra igreja, do grego "ekklesia", quer dizer: "os que foram tirados para fora" do mundo (kosmos), portanto, não pertencem mais ao sistema malígno gerido por Satanás, nem deve se amoldar aos valores mundanos corrompidos. Pela Palavra de Deus entendemos que Satanás é o príncipe regente desse mundo (kosmos), como disse Jesus a seus discípulos: "(...) Já não falarei muito convosco; porque se aproxima o príncipe deste mundo, (kosmos), e nada tem em mim". (Jo 14.30). "(...) Se vós fosseis do mundo (kosmos), o mundo amaria o que era seu, mas, porque não sois do mundo (kosmos), antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos aborrece". (Jo 15.19). Disse, também, o apóstolo João: (...) Não ameis o mundo, nem o que no mundo há. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, (kosmos), a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberda da vida, não é do Pai, mas do mundo. E mundo passa, e sua concupiscência; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre". (1ª Jo 2.15-17). Portanto, não podemos compartilhar com o sistema mundano organizado e sincretizado por Satanás, em detrimento ao Reino de Deus!

f) O crente, indiferente, morno, que não é nem frio nem quente . (Ap 3.15-16).

Em Cristo Jesus, não se pode ter um coração dividido entre dois pensamentos e dois caminhos, indefinido, indiferente, caracterizando ter uma mornidão espiritual e religiosa, como diz a Palavra de Deus, assim: “EU SEI AS TUAS OBRAS, QUE NEM ÉS FRIO NEM QUENTE: OXALÁ FORES FRIO OU QUENTE! ASSIM, PORQUE ÉS MORNO, E NÃO ÉS FRIO NEM QUENTE, VOMITAR-TE-EI DA MINHA BOCA” Ap.3:15-16. “NÃO PODEIS SERVIR A DEUS E MAMOM” (Mt. 6:24). Tem que haver uma posição coerente e bem definida com respeito a Cristo, à Sua Palavra e à Sua Igreja. Esta opção é feita, evidentemente, pelo amor a Cristo, à Sua Palavra e à Sua Igreja. Jesus elogia o crente fiel com estas palavras: "(...) Bem está, servo bom e fiel. Sobre o pouco fostes fiel, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor" ( Mt 25.21, 23).

g) Jesus expulsou o vendilhões do templo por venderem produtos religiosos. (Mc 15.11-18)

Zeloso e indignado contra a profanação do templo em Jerusalém, Jesus expulsou os vendilhões que vendiam e compravam, fazendo da "Casa do Senhor", uma casa de negócio, invertendo a ordem dos valores religiosos por interesses, meramente, mercantilistas, como está escrito assim: "(...) Não permitia que ninguém atravessasse o templo, levando qualquer objeto, e ensinava dizendo: Não está escrito que a minha casa será chamado casa de oração para todos as nações? mas, vós tendes feito um covil de salteadores". (Is 56.7; Mc 11.17). Desta maneira Jesus inpugnou a profanação do templo, reinvidicando a santidade e a ordem estabelecida.

Pr.Djalma Pereira
Pastor Regional da Igreja de Cristo no Brasil, Região Sudeste/Sul
http://mensagemdacruz-djalma.blogspot.com

terça-feira, 7 de julho de 2009

--> Loja de Brinquedos, McDonald's, Embraer - Dos Medelos Eclesiásticos



Robinson Cavalcanti, bispo anglicano

Que Deus está de volta todos nós sabemos; igualmente que Ele parece morar mais no hemisfério sul. E como as Igrejas novas do hemisfério sul se relacionam com as Igrejas velhas do hemisfério norte, nessa nova globalização eclesiástica?

Sabemos que as pessoas, quando crianças, naturalmente imitam seus pais. Quando crescem, guardam marcas familiares, mas desenvolvem a sua própria personalidade. É normal imitar papai e mamãe aos 10 anos; não é muito normal continuar a fazê-lo aos 40 anos...

Todo cantor, ou cantora, inicia sua carreira imitando o seu ídolo, ou ídola, Depois, amadurecem, e, mesmo mantendo influências de sua formação, desenvolvem um estilo próprio. O mesmo não acontece com os “covers”...

O Evangelho vem das velhas Igrejas com o seu conteúdo eterno e a sua roupagem cultural. O que se espera é que se mantenha o conteúdo, mas se atualize o guarda-roupa. Mas, nem sempre. Há uma diferença entre ortodoxia (conteúdo) e tradicionalismo (forma).

Certa vez, na então Missão do Amor Cristão, em Maceió, Alagoas, falei que eles deveriam ser gratos à Paróquia que os fundou, e guardar o seu bom legado, mas que deveriam desenvolver uma personalidade própria, encarnando a fé na alagoanidade. Para que fui falar! Depois do culto, um dos líderes, bastante aborrecido, verberou: “Nós não queremos nada disso que o senhor falou. O que nos queremos é ser uma cópia fiel da Paróquia que nos fundou (em outra cidade, e em outro Estado)”. Ao que respondi: “Então vocês vão ter que clonar o pastor e o rebanho”.

Um grupo estava trabalhando na formulação de uma pastoral familiar, quando chegou o projeto do Encontro de Casais com Cristo (ECC). O projeto anterior foi suspenso, e o ECC adotado. Um membro da Junta Paroquial e eu nos dirigimos ao Pároco, e propomos a criação de uma comissão, para adaptar o ECC ao modo de ser da nossa Paróquia e a nossa cultura regional. Vermelho de raiva, o Pároco reagiu: “E quem são vocês para terem a pretensão de aperfeiçoar um modelo perfeito e bem sucedido?”. Nos retiramos do gabinete, e não porque tivéssemos nada contra o ECC, ou os seus dirigentes, mas por uma concepção missiológica, nos recusamos a participar de qualquer pacote fechado, sacralizado, imutável, inaperfeiçoável.

Olhando para as Igrejas do hemisfério sul, descobrimos três modelos:

As Igrejas Lojas de Brinquedos: não projeta, não fabrica, apenas vende, para o público local, produtos importados (made in China, made in Malásia, etc.). Estarão sempre buscando as novidades, para atrair os seus fregueses;

As Igrejas McDonald's: funcionam como uma franquia. Os funcionários podem ser morenos, falar português e receber em real, mas os produtos serão exatamente iguais à matriz. Até refrigerante só vende coca-cola, fanta e sprite, nem guaraná, mesmo estando no Brasil. Esse modelo se aplica, também, para missionários brasileiros no exterior: são morenos, mas tão originais quanto os vendedores da Amway...;

As Igrejas Embraer: podem importar ideias e componentes de vários lugares, mas fabricam aqui e aperfeiçoam aqui. Começaram com os “xavantes” e os “bandeirantes” (kombis voadoras...), para, depois, com o EMB, concorrer no mercado de aviões de médio porte com a franco-canadense Bombardier, e hoje, com o novo Embraer, apresentar o modelo maior, altamente competitivo.

Quando os irmãos Vieira Ferreira, maranhenses e ex-presbiterianos fundaram a primeira denominação nacional: a Igreja Evangélica Brasileira, ainda no século XIX, quando foi criada a Igreja Presbiteriana Independente (IPI), no início do seu século XX, ou quando o missionário Manoel de Melo – descolando da Assembleia de Deus e da Igreja do Evangelho Quadrangular – funda a Igreja Pentecostal “O Brasil para Cristo”, nos anos 1950, quando a Congregação Cristã no Brasil se descola da sua tríplice influência de origem (valdense, pentecostal, irmãos livres), quando a Assembleia de Deus mergulha na religiosidade popular do nordeste, se diferencia das suas mães suecas e norte-americanas, presenciamos o “modelo Embraer”.

Não seria esse modelo responsável pelo “Reavivamento do Leste da África”, nos anos 1930, pela fundação das igrejas nativistas como a Igreja Kimbanguista, ou pelo crescimento das igrejas coreanas, que chegam ao cenário cristão mundial com produtos próprios?

O Brasil tem recebido muito de Deus: natureza, liberdade, evangelho. O que lhe dá muita responsabilidade para o amadurecimento do Corpo de Cristo e para as missões mundiais. Mas, com o que estamos contribuindo para o enriquecimento do todo e para a renovação/atualização do eterno?

Tenho orado e trabalhado por esse amadurecimento, para o dia em que superaremos o modelo Loja de Brinquedos e o modelo McDonald's, e entraremos no mercado, honrando ao Senhor, com um possante avião, por nós desenhado e pilotado!

Fonte: Pavablog
http://pavablog.blogspot.com

domingo, 5 de julho de 2009

-->Oportunidade de reevangelização em uma sociedade cada vez mais pluralista


Em Romanos 12.1-2, Paulo associa “século” e “mente”. Naquele tempo, ainda não se filosofava sobre ideologia, no sentido político do termo. Muito menos sobre a formação social da consciência. Consciência de classe, então, nem pensar! Esses são conceitos modernos. Mas os ingredientes dessas descobertas já existiam entre os filósofos gregos e romanos. E encontramos o apóstolo Paulo a nos alertar sobre o poder conformador do meio em que vivemos sobre nossa mente. Como que a dizer que nosso modo de sentir, pensar e agir tende a acompanhar a sociedade em que vivemos — nosso “século”. A tal ponto que, se quisermos ser “normais”, teremos de nos deixar secularizar.

A exortação, então, é que não permitamos que essa fôrma secular conforme nossas mentes, de modo acrítico, mas que cuidemos de ultrapassar a fôrma deste século — que nos transformemos — e que nos conformemos à mente de Cristo. Que missão!

Ao buscarmos as oportunidades de reevangelização que uma sociedade cada vez mais pluralista nos oferece, precisamos responder à pergunta: que século? Porque se soubermos de que sociedade estamos falando, saberemos também a que “mentes” destinaremos nossa mensagem (re)evangelizadora.

A mente secularizada de nosso “século” sonha com um lar. Ela é cidadã do mundo (portanto, não tem pátria; sendo de todos, não pertence a ninguém); vive numa “sociedade-supermercado”, sob o império das diferenças; conformou-se ao hábito de escolher nas prateleiras da vida; é consumidora e consumista; é relativizada e gosta de poder optar; é horizontalizada (o valor do que é ofertado nas prateleiras depende de quem escolhe); é volúvel (não resiste a uma oferta, a uma novidade, a uma promoção); é superficial como uma borboleta (sempre de passagem para a próxima flor); é hedonista (seus critérios de escolha são o prazer: pessoal, íntimo e intransferível); é iconoclasta (porque é horizontalizada) e tem como valor maior e bússola existencial sua auto-estima.

Essa mente sem lar é livre, leve, solta — e órfã. Não deve satisfação a ninguém; não precisa agüentar ninguém; não aceita intromissões, não deseja relações profundas nem duradouras. Mora sozinha, por opção. Seus votos de casamento valem menos que uma placa de 20 km/h na estrada.

Mas essa mente sonha com um lar. Sim, ela foi criada para viver em comunidade, ancorada emocionalmente por referenciais, protegida por gente que gosta dela; carregada no colo por afetos duradouros. Ela foi projetada para viver em família. A reevangelização dessa mente precisa incluir a oferta concreta do amor de Deus. Um amor que receba, acolha, perdoe, restaure, coloque um anel no dedo e uma sandália nos pés.

Essa mente não sabe ser convencida. Não quer decidir logicamente. Não resistirá acordada à nossa apologética. Mas poderá ser seduzida por uma manifestação afetiva, sacrificial, não-combativa, não punitiva da igreja. A doutrina certamente terá o seu lugar na renovação das mentes, para que seja possível experimentar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. Mas ela virá ao seu tempo. Agora, ela pode matar o paciente. O tempo é de leite. Com o crescimento, a criança passará a mastigar alimentos sólidos. E a Palavra será seu guia.

Para reevangelizar o mundo pós-moderno é necessário que nos renovemos, pela transformação de nossas mentes, e desenvolvamos uma especial capacidade de encarnação, num século de almas tão altivas quanto desesperadas; corações que de dia desprezam o Senhor, mas à noite anelam por ele.

Adaptado de participação no Encontro de Amigos, da Revista Ultimato, em Viçosa, julho de 2008, e publicada na edição 315.

Fonte: Home Page de Rubem Amorese
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